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sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Com o Cetro: Thiago Quintella de Mattos

Quadro para profissionais da Cultura Brasileira com perguntas fixas elaboradas por João Lenjob inspirado no Livro Entrevistas de Clarice Lispector. Outros Profissionais com o Cetro.

Thiago Quintella de Mattos, Carioca, Escritor, Professor de inglês e espanhol, Mestre em Ciência Política

Você critica seus próprios trabalhos?
Sim, critico, embora ache que minha crítica seja apenas o ponto inicial de uma crítica vinda de outrem.

O que é o amor?
Tão indecifrável quanto a vida. É aquilo que não devemos nos preocupar em definir senão sentir e tentar com ele não se transforme em ódio.

As conquistas interferem na vida pessoal?
Uma vez que as conquistas, de toda a sorte, são parte de nossa vida, seguramente elas nos interferem.

Qual o maior momento da carreira?
Começar a ter uma carreira.

Quando você sabe que vai dar certo algum trabalho?
Quando há uma dedicação a ele que lhe deixa muito tranquilo, pensativo e impelido a um trabalho.

Como você acha que o Castelo pode ser exemplar ou inspirador através da sua pessoa?
Por sua própria proposta, incentivando continuamente a todas as manifestações artísticas, o Castelo é um veículo que está sempre em movimento pró-vida. Nele podemos, quiçá, nos encontrar.

O seu trabalho é a coisa mais importante de sua vida?
O meu trabalho, ou até a busca dele, torna minha vida importante.

O que você mais deseja atualmente?
Falar de desejo é algo que não conseguimos definir tal qual o próprio desejo, por excelência. O que mais desejo atualmente é ter sempre desejos, construir minha vida da maneira que posso construí-la.

Como as pessoas podem interferir no seu trabalho?
As pessoas são o meu trabalho. Não sou sem elas.

Quais os profissionais da arte, moda, esportes, educação, saúde e afins você mais admira pela natureza profissional e pessoal?
Inúmeros! Eu elencaria agora. E é o "agora" que guiará minhas admirações: Arte, os escritores; Moda, a Gisele; Esportes, Clube de Regatas Vasco da Gama; Educação, Paulo Freire; Saúde, Freud. Quanto aos afins, admiro todos aqueles que fazem da arte o norteador (ou desnorteador) de suas vidas.

O Thiago além de Duque indireto companheiro da Ana Letícia, é um amigo do Lenjob. Não é a primeira vez que ele deixa aqui seus trabalhos e temos certeza que estará sempre presente. É sinal de talento à vista.

Castelo do Poeta
twitter: @castelodopoeta

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Biblioteca: Thiago Quintella

Tenacidade
Thiago Quintella de Mattos

Apesar da chuva, fina porém densa, ele caminhava como se molhado aumentasse sua energia. Na estrada, os carros passavam rente, tirando a água da poça e passando-a para seu corpo. Nada o impedia de caminhar. Nada.

Alguns percebiam sua ida a qualquer canto e se perguntavam para onde ele iria com tanta certeza, se é que havia algum propósito em seu caminho. O passo era sempre na mesma freqüência, com ares mecânicos. Pulava para a calçada quando uma poça poderia ser mais funda do que aparentava. Suava, língua para fora. Só virava a cabeça para o lado se movimentos bruscos lhe chamassem a atenção.

Uns colegas vinham até ele; única coisa que poderia pará-lo por alguns segundos, para um cumprimento, talvez. Uma que passou por ele pouco lhe interessou naquele instante. Acelerou um pouco mais. Levantou a cabeça e no início de uma reta via uma ponte. No outro lado da margem, certificou-se: estava ali. Aumentou a velocidade o suficiente para não se cansar. Chovia ainda, muito.

Atravessando a ponte, quase é atropelado por um ônibus. Virou mais uma curva e pronto, parou. Sentou-se sobre suas pernas e olhava o caminhão frigorífico descarregar as peças de boi, gigantescas. Abanava o rabo de felicidade como todos de sua espécie que lá estavam. Como era recém-chegado, escolheram-no para aquele osso. Os outros de sua espécie respeitavam sua vez; ou já satisfeitos, ou somente condescendentes com sua posição. Sozinho, com seu objetivo na boca, foi para debaixo de uma marquise se alimentar e se distrair. Sozinho.

O Escritor, amigo, Visconde Thiago Quintella de Mattos é figura cativa do Castelo tanto escrevendo, como entrevistado, como primeiro-cara pois ele é namorado de uma das sócias e Duquesa Ana Letícia. O camarada é além do talento e amizade uma pessoa super bacana, de papo bom, de altas lembranças da cultura e da mídia e de uma curiosidade acentuada. É de pessoas assim que o Castelo orgulha-se de ter presente. Seu espaço virtual é o http://olhaosemblante.blogspot.com.

João Lenjob
twitter: @lenjob
http://lenjob.blogspot.com

TEXTO ACIMA CEDIDO E AUTORIZADO POR THIAGO QUINTELLA

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Biblioteca: Thiago Quintella de Mattos

Castelo do Poeta entrevista Thiago Quintella de Mattos, escritor carioca.
DEZ perguntas, DEZ respostas, algumas fotos e muitas formas de escrever.
Por João Lenjob
twitter: @lenjob

UM
CP: Com que idade você começou a escrever??

TQ: Em 1985, aos sete anos, quando Irmã Luíza incentivou a turma da Primeira Série do Ensino Fundamental (antigo Primeiro Grau) a escrever, todas as sextas-feiras um caderninho de "estórias", baseado em figuras de mimeógrafo que ela colava no topo das páginas. Mas passei a escrever, sabendo que escrevia mesmo, quando comecei a fazer uma espécie de diário no dia primeiro de janeiro de 1996, inspirado nas crônicas da seção de "opinião" do JB (Jornal do Brasil). Aproveitei um caderno de não sei quantas páginas, com a Ana Paula Arósio na capa, quando ela ainda era apenas uma modelo e a foto da Liv Tyler na primeira página. Treinava ali alguns textos como se escrevesse para uma coluna de jornal.



DOIS

CP: Além do JB, havia outras fontes para escrever???

TQ: Havia, seguramente. A vida, os casos que contava ou que contavam para mim, além das memorias da infância; básico. Passei a achar interessante relatar aquilo que eu, amigos e familiares conversávamos, além das cenas e diálogos da sociedade. Está tudo ali, aqui, na sociedade e também em nossas reminiscências. As questões abordadas na faculdade de Direito, em Petrópolis, e nos cursos de extensão, ou seja, nos botecos, onde a verdade é verdadeira. Agora, escrever para as pessoas todas lerem, o que sempre está latente no escritor, começou com a elaboração de uma esquete, em 2000, e um conto "Filósofos x Compositores Clássicos", na qual esboço um diálogo de dois amigos montando uma partida de futebol entre os filósofos e compositores clássicos. Depois, felizmente, descobri que Monty Python havia feito uma partida semelhante, mas entre filósofos alemães e gregos. Em 2003, fui convidado a montar um blog, o Canis Familiares, onde pude jogar algumas coisas para as pessoas comentarem a fim de que eu percebesse se o que eu estava fazendo era algo bom.

















TRÊS

CP: A sua versatilidade escrevendo veio deste método de abrir as fontes? E de onde veio esta veia humorística?

TQ: João, agradeço o "versatilidade". Acho que sim, abrir e fuçar algumas fontes. E a coisa melhorava muito quando lia os grandes escritores e escritoras: "olha só, ele também observava as coisas assim!", exclamava para mim mesmo, acreditando que estava no caminho certo. Quanto ao humor, ninguém menos que Chico Anysio é o "culpado". Conheci o Chico Anysio escritor e literato recebendo pelas manhãs os contos que ele mandava para os amigos dele, por intermédio do ator André Mattos, primo de meu pai. Era o chamado "Armazém". Daí, descobri uma coletânea de contos do Chico na biblioteca do apartamento de Copacabana, da minha família. Era "O Enterro do Anão". Li o conto "Domingo em Madureira", "Camarada Brijinski" e muitos outros. Percebi ali que escreveria conto da maneira de Chico Anysio, fazendo do simples uma coisa fantástica, com muita poesia. Passei também por influências de Fernando Sabino, Rachel de Queiróz, Guy de Maupassant, Rubem Braga, Stanislaw Ponte Preta, Aluísio de Azevedo e o magnífico Lima Barreto. São esses que me motivaram a escolher meu estilo, ou melhor, a buscar um estilo.



QUATRO

CP: Você segue a linha de cronista ou de vez em quando vai pros contos ou pra poesia? Qual é a linha que mais define a sua literatura??

TQ: Quando é algo para se publicar diretamente em blogs, prefiro a crônica; ela vai ao leitor com mais graça, mais sedução. Os textos que escrevo, digito e guardo nos arquivos vão para umas coletâneas, já registradas mas aguardando momento para publicação. Entretanto, como o próprio Sabino definiu a indefinição de crônica e conto, tanto a primeira tem um pouco do segundo como o segundo tem algo da primeira. Um "croníconto" seria um bom novo nome para este estilo, sendo meu advogado para neologismos Guimarães Rosa. Quanto à poesia, acho que ela entra na prosa; e sou horrível com os versos senão para compor sambas-enredo.

















CINCO

CP: Quem você tem hábito ler Thiago?

TQ: A tendência é variar entre os autores consagrados, os que chamam de Clássicos da Literatura Universal, e alguma revelação. Li alguns, mas desisti de estabelecer metas, números para lê-los; sempre serão poucos os clássicos que leremos. Agora, como diria um ex-professor de minha mãe, do curso de Letras: o livro que passa a nos escolher. Nos últimos quatro ou cinco anos, porém, tenho lido muitos autores da iberoamérica. Achei "Todos os Fogos o Fogo", do argentino Julio Cortázar, li e me encantei com o conto "Auto-Estrada para o Sul". Depois comprei "Os Prêmios" e o devorei. Como queria tratar da América Latina ou a América do Sul no mestrado em Ciência Política, a leitura de autores de nosso continente, dos nossos vizinhos foi se
intensificando. Parti para Manuel Scorza, peruano, Gabriel García Marquez, os uruguaios Eduardo Galeano e Horacio Quiroga, o nicaraguense Miguel Ángel Asturias etc. O meu "campo" de estudo no mestrado foi o brilhante livro do boliviano Néstor Taboada Terán, "Manchay Puytu: El amor que quiso ocultar Dios". E atualmente leio "Eu, O Supremo", do paraguaio Augusto Roa Bastos, para apresentar um trabalho sobre autoritarismo, poder e psicanálise no próximo FOMERCO, fórum do Mercosul em Setembro, na UERJ. Mas volta e meia cai um ensaio científico na minha mesa de cabeceira ou um escritor que não havia lido ainda, como os sensacionais estadunidenses Charles Bukowski e Jack Kerouac; e a felicidade que podemos ter lendo os escritores lusófonos africanos, Mia Couto, de Moçambique, Manuel Lopes, de Cabo Verde e Maria Celestina Fernandes, de Angola.


SEIS
CP: Quais são as principais obras da Literatura na sua opinião?

TQ: Uma das perguntas mais difíceis de se responder, mas com esforço e bom trabalho da mente, talvez seja possível... Bom, vejo quatro obras fundamentais, para começar a entender o que a literatura nos mostra. "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis, diz vagamente, ou às vezes nem diz o que somos. Machado chega ao seu ombro e sussurra: "Tu podes ser isso, meu caro, ou já não o és?". Saímos de sua leitura rindo sarcasticamente de nós mesmos. "O Vermelho e o Negro", de Stendhal (pseudônimo do francês Henri-Marie Beyle), nos diz que podemos ser aquilo que desejamos, mas que há muitas barreiras físicas e sociais a se transpor. Em "Crime e Castigo", de Doistoiévski, o nosso velho "Dasta" (como gosto de falar) arranca o seu coração e em riste o aponta para a sua cara e diz: "Tu és isso, ó humano!". E "Dom Quixote", de Miguel de Cervantes, mostra que somos ao mesmo tempo o Dom Quixote e Sancho Pança, O Cavaleiro e o Escudeiro, ou seja, nós e nossas fantasias, tão importantes quanto a própria realidade. Créditos também a Rocinante e Ruço, os motores sensíveis desses dois magníficos personagens.






















SETE

CP: As letras, as canções, têm comprometimento no seu trabalho??

TQ: Bem, as letras, diretamente, me influenciaram a escrever "Depois que a Banda Passou", em que brinco com a letra de outro grande Chico, o Buarque. Meu pai é letrista e poeta, as letras de música sempre foram muito destacadas quando nós, a família, ouvíamos por finais de semana quase inteiros, os grandes da MPB. Meu pai lançará em breve um disco com suas letras e com a música de seu ex-colega de plantão no Hospital de Paracambi-RJ, e do Maestro Rodrigo D'Ávila. Os discos de boas músicas abarrotavam as casas por onde moramos. Faço parte da geração que teve a chance de ouvir A Arca de Noé e Casa de Brinquedo. Toda criança deveria ouvir estes discos, fica aqui uma dica às gravadoras. Já fiz um esboço de conto para Rapsódia Nº 2 de outro Francisco, o Liszt. Idealizo uma esquete intergalática para "A Saucerful of Secrets", do Pink Floyd; e meu primeiro conto em língua estrangeira, quer dizer, bilíngue, foi um conto cortaziano baseado em "Buenos Aires Hora Cero", de Astor Piazzolla: os pensamentos e tumultos de um brasileiro vagando pela meia-noite bonairense seguem os contornos da música.



OITO

CP: Você é bastante ligado à cultura e gosta muito de esportes. O que você acha que deveria ser melhorado na cultura e no esporte brasileiros, e qual o caminho mais fácil??

TQ: Se um país quiser ser importante na comunidade internacional, além, obviamente, gostar de seu povo, deve inverstir muito em políticas culturais na qual o esporte é parte relevante. Melhorar a divulgação da cultura incessantemente, preconizar o saber, o ensino, a curiosidade, o desenvolvimento tecnológico. Fazer com que seja "legal", gratificante, enaltecedor ser brasileiro e ser de uma nação, talvez a única no mundo, onde há incontáveis manifestações artísticas exclusivas, originais ou mescladas. Pernambuco, se me lembro bem, só Pernambuco possui sete ritmos musicais e danças resgistrados no Ministério da Cultura (mas deveríamos verificar essa informação). Quanto aos esportes, são flagrantes as dificuldades da maioria dos atletas amadores e até alguns profissionais para se manterem; com as características de nosso povo e um investimento sério, desde às escolas, nas comunidades, competiremos de igual para igual com as potências olímpicas. O Brasil é pluricultural e multimiscigenado. A cultura e o esporte são alguns dos principais meios para se quebrar todos os estereótipos vendidos pela ideologia europeia e estadunidense, desconstruir todo o ideal de perfeição do colonizador, há séculos tido como padrão incrustado em nossa mente. Nessecitamos nos ver com nossos próprios olhos.


















NOVE

CP: Existe este caminho fácil??

TQ: Eu ainda creio que oferecer cultura, primar pelo esporte e sua função social impostantíssima é o caminho para criar não contestadores de uma "ordem" inventada por determinada classe que se diz especial, mas, sim uma tendência a criar um povo mais tolerante, mais conhecedor de si mesmo um povo mais leitor, mais artista, mais atleta. É difícil o caminho, mas ele tem que ser percorrido.



DEZ

CP: E o Thiago pra frente? Quais os planos? Quando leremos um livro seu?

TQ: Depois de solucionadas algumas prioridades na minha vida profissional, pretendo compilar de vinte a trinta textos, entre crônicas e contos, registrar e publicar, pelo menos até 2012. A arte vai nos salvar!


Mais sobre o trabalho do escritor, o Visconde Thiago Quintella de Mattos, pode ser encontrado em seu blog atual http://www.olhaosemblante.blogspot.com e, ainda, no antigo http://canisfamiliares.blogger.com.br, onde se encontram textos dele desde 2003.


ENTREVISTA AUTORIZADA.
MATERIAL CEDIDO E AUTORIZADO POR THIAGO QUINTELLA DE MATTOS.