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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Poesia no Verde: Ana Peixoto

Rio Amazonas
Ana Peixoto
 
Sou claro, sou forte. Sou farto
Como os cabelos dos brancos
Que outrora me desbravaram.
Às vezes chego a ser encrespado
Com nuances de dourado
Como os cabelos sarará dos arigós
Que à sombra dos seringais se abrigaram.
Sei que sou importante.
Por onde passo sou fertilizante
E num toque de mágica decidida
Transformo tudo em vida e comida.
Nos balanços dos seus galhos
As jovens e as velhas árvores
Jogam flores perfumadas ao vento
Para suavemente me embriagar.
Faço voltas, abro braços, faço atalhos
Cerco as ilhas, as matas retalho
Pareço me aquietar...
Sou às vezes (re)manso
Mas num ímpeto me lanço
Aos seus pés para beijar.
São tantos beijos, tantos
Que a terra-caída de amor se lança sobre mim
E se deita em meu leito
Então aproveito
E adentro as partes estreitas
À procura de mata virgem
Para comigo seguir até ca(n)sar e enfim
Procurar um abrigo
Entre as moitas de capim
Para fazer (f) ilhas – criar a fauna.
Aviso a quem nos explora:
Eu so (r)rio, caminho para o mar, enfim
Não paro, não (des)canso e agora
Eu não vivo sem a Flora
E ela depende de mim. 

E mais uma vez no Castelo a literatura verde de Ana Peixoto, só que desta vez com a lírica florestal do Poesia no Verde, da curadora Franciná Lira.

Castelo do Poeta
@castelodopoeta

TEXTO CEDIDO E AUTORIZADO PELO GRUPO POESIA NO VERDE

quarta-feira, 7 de março de 2012

Biblioteca: Ana Peixoto

Moro Aqui
(para Ademir Ramos)
Ana Peixoto

Estas árvores altas e frondosas
Dão sombra, flores e frutas saborosas.
À sombra ato a rede
Tomo um banho de água fresca
Provo a água, mato a sede
E deixo o tempo tomar a dianteira
Com galhos secos faço o fogo na churrasqueira
E enquanto vira carvão e brasa,
Na varanda da casa
Cato feijão de praia e arroz
Ponho para cozinhar os dois
Com jabá e manjericão
Faço um gostoso baião
Acompanhado de cheiro verde
Limão, murupi e pirão
Com jaraqui, DESTE TAMANHO, 
Assado na brasa
O pessoal de casa, diz: OBA! Aos gritos.
Bebo um gole de licor de jenipapo,
Saboreio um suco gelado de apuruí
Tá servido?
Para a sobremesa tem doces de cupuaçu, 
Jaca e bacuri
Mas se preferir comer caju, ingá e umari
É só pegar no galho,
Não dá trabalho.
Agora satisfeito, me deito.
Deito na rede para embalar
E ouvir o vento cantar no mato
Uma doce canção de ninar.
Estou em casa, no quintal.
Moro na Amazônia
E o mundo sonha
Ter um lugar igual.



E novamente uma Profissional da Literatura direto do Amazonas. Ana Peixoto enviou este belo poema e esperamos que ela esteja sempre por aqui assim como sua amiga que nos indicou, Franciná Lira.

Castelo do Poeta
twitter: @castelodopoeta

TEXTO CEDIDO E AUTORIZADO POR ANA PEIXOTO