quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Biblioteca: Ira Buscácio

Incinerador
Ira Buscácio

Sabe aquela camisa azul, que você gosta tanto?
Aquela que tem seu suor de homem empoçado na gola?
Aquela, com furinho na lateral que roubei pra me abraçar sem braços, na insônia de merda e sem saída, de um desejo sem cura?
Não! Juro, que não fiz bruxaria.
Só não queria deitar sozinha e ficar lendo um romance, desses cretinos, que poderia ser nosso, mas nunca seria, porque é tudo tão inglório e perfeito demais.
Nosso amor tem literatura mais odiosa e cheia de vícios incontáveis.
Precisava ter a certeza que não tentaria o suicídio, no avesso da noite, por isso roubei meu bote salva-vidas, a camisa azul era o meu CVV (centro de valorização da vida).
E me matar com as mãos sujas de azul seria bandeira demais, por mais que te amasse, eu jamais te deixaria esse triunfo.
Sou foda, carne de pescoço mesmo, a médio vidente disse que é minha Iansã, por isso não deixo barato. Corto os pulsos, mas não assino embaixo.
Nunca contei, mas escondi a camisa na primeira gaveta da cômoda, quando você sujo de amor, falou tenor: vou mijar!
Adorava essas suas características broncas de macho e mijar era sensual e selvagem. Fazia-me sentir mulherzinha e eu forjava fragilidade pro nosso gosto.
Os dias foram galopando e a camisa acabou esquecida. Você nem notou e havia outras, menos ou mais azuis.
Eu era uma pedinte de retalhos e pensei em tudo que podia ter, de meu e real, além do desejo... “Uma camisa, sem corpo, sem alma, apenas com o sal de homem que se ama”.
Olha amor! Essa noite foi confusa, eu dormi com seu cheiro entre as pernas e sobrevivi.
Cedo peguei a camisa e lavei com amaciante, do mais caro, depois de seca dobrei-a com o fervor das ninfas dos oráculos.
Guardei-a na caixa dourada com um laço esquizofrênico vermelho.
Não foi por acaso, mas o seu cheiro desceu pelo ralo, agora passa aqui e pega os seus restos incinerados.

A Viscondessa Ira Buscácio é poetisa do Rio de Janeiro, capital. Mais de seus textos no Sinta e Escreva, o endereço é http://irabuscacio.blogspot.com/.

Quem quiser expor seus poemas aqui favor enviá-los para castelodopoeta@gmail.com, com o título: Castelo Poesia.

TEXTO CEDIDO E AUTORIZADO POR IRA BUSCÁCIO

6 comentários:

  1. uau!! perfeito não?
    Parabéns pela postagem.
    beijos.

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  2. Apenas o cheiro se foi, mas e o amor e o desejo, esses não descem pelo ralo.
    Bjos achocolatados

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  3. Boa noite
    Sinceridade, não gostei.
    Abraços.

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  4. Parabéns, Ira. Irei visitar teu blog.
    Valeu João por ceder este espaço aos talentos desconhecidos. Abraços!

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  5. Tem personalidade forte quem escreve...
    é bem visceral
    abraços

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